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Produtor: antes de assinar um novo financiamento, faça isso e evite aumentar sua dívida

19 de jun.
4 min de leitura

"O banco disse que essa é a melhor solução."

Essa frase é uma das que mais escuto de produtores rurais.

O problema é que, muitas vezes, o produtor está enfrentando uma safra frustrada, preços baixos, aumento dos custos de produção ou dificuldades de comercialização e acredita que contratar uma nova operação de crédito resolverá o problema financeiro.

Mas existe uma pergunta que poucos fazem:


Esse novo financiamento vai solucionar o problema ou apenas adiar uma dívida que pode se tornar ainda maior?

A verdade é que muitos produtores não estão em crise por falta de produção ou de patrimônio. Eles estão enfrentando um problema de estrutura financeira, e assumir uma nova dívida sem uma análise técnica pode comprometer o fluxo de caixa da propriedade por muitos anos.


O crédito rural é um grande aliado, mas exige planejamento.

O crédito rural foi criado para fortalecer a atividade agropecuária. Ele permite ao produtor investir em tecnologia, custear a produção, adquirir máquinas e expandir a atividade.

No entanto, quando utilizado para cobrir déficits financeiros acumulados, sem um planejamento adequado, pode criar um efeito conhecido no mercado financeiro como "rolagem da dívida".

Na prática, o produtor contrai um novo financiamento para pagar parcelas antigas, custear despesas atrasadas ou equilibrar o caixa da fazenda.

Inicialmente, parece uma solução.

Com o passar do tempo, porém, as parcelas aumentam, os juros se acumulam e a capacidade de pagamento diminui.


O maior erro que o produtor pode cometer

Muitos produtores analisam apenas três pontos:

✔ Valor liberado.

✔ Taxa de juros.

✔ Valor da parcela.

Mas existem fatores muito mais importantes.


1. Qual é o custo efetivo total da operação?

Nem sempre a menor taxa significa a melhor operação.

É necessário avaliar:

  • seguros obrigatórios;

  • tarifas;

  • encargos;

  • exigências contratuais;

  • custos acessórios;

  • garantias adicionais.

Uma operação aparentemente barata pode se tornar muito mais onerosa ao longo dos anos.


2. O financiamento realmente atende à necessidade da propriedade?

Uma pergunta simples:

Se esse dinheiro entrar hoje na fazenda, ele vai gerar renda suficiente para pagar a própria operação?

Se a resposta for não, talvez o financiamento apenas aumente o endividamento.


3. Existe capacidade real de pagamento?

É necessário analisar:

  • histórico de produtividade;

  • fluxo de caixa;

  • receitas futuras;

  • despesas fixas;

  • custos operacionais;

  • dívidas existentes.

Um produtor pode possuir uma excelente fazenda e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras temporárias.

Patrimônio não é sinônimo de liquidez.


Um perigo pouco conhecido: a venda casada

Alguns produtores relatam situações como:

"Para liberar o crédito, o gerente pediu que eu contratasse seguro, adquirisse títulos de capitalização ou aplicasse recursos em investimentos do banco."

É importante que o produtor analise cuidadosamente essas exigências.

Produtos acessórios podem aumentar significativamente o custo financeiro da operação.

Cada contratação deve ser avaliada individualmente.



Refinanciar nem sempre significa melhorar a situação.

Muitas vezes o banco oferece:

"Vamos quitar suas operações antigas e fazer um contrato novo."

Parece uma boa proposta.

Mas algumas perguntas precisam ser respondidas:

  • Qual será o saldo final da dívida?

  • Os juros serão maiores?

  • O prazo aumentará?

  • Haverá novas garantias?

  • A dívida antiga será efetivamente quitada?

  • Haverá capitalização de encargos?

Sem essa análise, o produtor pode transformar uma dificuldade temporária em um problema financeiro de longo prazo.

Atenção às garantias oferecidas

Um ponto que merece especial cuidado é a constituição das garantias.

Antes de assinar, o produtor deve verificar:

Hipoteca.

Quais imóveis estão sendo vinculados?

Alienação fiduciária.

Em caso de inadimplemento, quais os riscos para o patrimônio?

Penhor agrícola ou pecuário.

Quais bens da atividade estão sendo comprometidos?

Aval.

Quem está assumindo responsabilidade pela dívida?

É comum que familiares assinem operações sem compreender totalmente as consequências jurídicas.


O produtor deve analisar sua situação antes de buscar mais crédito.

Muitas propriedades possuem condições de recuperação financeira sem necessidade imediata de novos financiamentos.

Uma análise técnica pode identificar:

  • operações inadequadas;

  • sobreposição de garantias;

  • necessidade de renegociação;

  • revisão do fluxo financeiro;

  • oportunidades de alongamento das dívidas;

  • reorganização do passivo.

Cada caso deve ser estudado individualmente.


Safra frustrada muda completamente a análise financeira.

O produtor está sujeito a fatores que fogem do seu controle:

  • seca;

  • excesso de chuvas;

  • geadas;

  • incêndios;

  • pragas;

  • doenças;

  • oscilações cambiais;

  • crises internacionais;

  • variações dos preços das commodities.

Esses eventos podem comprometer a capacidade de pagamento, mesmo quando a gestão da propriedade é eficiente.

Por isso, decisões financeiras devem considerar a realidade econômica da atividade rural e os riscos inerentes ao setor.


Cinco perguntas que todo produtor deveria fazer antes de assinar qualquer contrato

1.Esse financiamento vai gerar receita suficiente para pagar suas próprias parcelas?

2.Minha capacidade financeira atual suporta essa obrigação?

3.Estou contratando crédito novo ou apenas empurrando uma dívida antiga?

4.Conheço todas as cláusulas e garantias do contrato?

5.Existe alguma alternativa mais vantajosa para reorganizar minhas finanças?

Um erro comum: decidir com pressa

No campo, as decisões precisam ser rápidas.

Mas quando se trata de crédito, a pressa pode custar anos de trabalho.

Um contrato rural pode permanecer vigente por muitos anos, afetando:

  • a capacidade de investimento;

  • o planejamento da propriedade;

  • a sucessão familiar;

  • a expansão do negócio;

  • a preservação do patrimônio.

Uma análise prévia pode evitar problemas futuros.


O crédito deve ser uma ferramenta de crescimento, não uma armadilha financeira.

O produtor rural brasileiro é um empresário do campo. Ele administra riscos climáticos, oscilações de mercado, custos crescentes e desafios logísticos.

Por isso, contratar um financiamento não deve ser apenas uma decisão bancária, mas uma decisão estratégica.

Antes de assinar qualquer operação, é fundamental compreender o impacto financeiro, operacional e jurídico do contrato.

Uma análise cuidadosa pode identificar riscos, oportunidades e alternativas que muitas vezes passam despercebidas no momento da contratação.

No agronegócio, uma boa safra depende de planejamento.

E a saúde financeira da propriedade também.


Mensagem final ao produtor

Produtor, antes de assinar um novo financiamento, não olhe apenas para o valor que entrará na conta. Olhe para o impacto que essa decisão terá na sua propriedade, na sua família e no futuro do seu negócio. Um contrato de crédito rural bem estruturado impulsiona a produção; um contrato assumido sem análise pode comprometer anos de trabalho. O melhor investimento, muitas vezes, não é contratar uma nova dívida, mas entender se ela realmente é necessária e se foi construída de forma justa, sustentável e compatível com a realidade da sua atividade rural.


Priscila AlvesAdvogada – OAB/SP 430.848EspecialistaemDireito do Agronegócio e Crédito RuralFundadora da P.Agro – SoluçõesJurídicas para o Agronegócio

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